Eu tentarei aqui apontar os que considero terem tido mais peso nesta lamentável realidade, mas a sua compreensão requer uma explicação detalhada, que comece pela origem desta povoação, há séculos atrás.
Fundada em simultâneo por Vareiros e Marinhões, cedo se transformou no mais afamado e activo centro de pesca de arrasto (Arte Xávega) da Beira Litoral, particularmente da sardinha. Na pesca estava a base da economia local.
As primeiras habitações dos pescadores (palheiros), eram todas construídas junto à margem da ria, e era nelas que se albergavam as poucas pessoas que inicialmente para aqui vinham a banhos. Estávamos em meados do século XIX, quando a praia passou a conhecer a afluência da alta sociedade do centro do país, desde a Bairrada a Viseu, até aos limites do concelho da Feira.
Datados de 1885, existem registos da construção de uma segunda faixa de palheiros, desta feita à beira mar. Construções rudimentares, frágeis, expostas ao fogo e a intempéries. Passou o aglomerado da ria (o mais desenvolvido) a ser utilizado para depósito de sardinha, por facilitar o seu carregamento para as embarcações que a levariam ao outro lado da grande Laguna. Os da beira-mar passaram então a servir de alojamento aos pescadores, durante a safra e aos banhistas, na quadra de banhos.
A actividade piscatória foi-se organizando em companhas (companhias), cujo número variou ao longo do tempo. Os seus elementos passaram a ser maioritariamente da Murtosa, uma vez que os vareiros se foram concentrando mais a norte, na praia do Furadouro e por lá ficaram. O arrasto na costa acontecia nos meses de Maio/Junho até Novembro de cada ano.
Regressavam depois a casa, ficando a localidade praticamente deserta durante o resto do ano, entregue apenas aos cuidados do ermitão, que tomava conta da capela que passou a ser do S. Paio, tendo este sido eleito padroeiro, pelos pescadores, mas que fora inicialmente construída em honra da Nossa Senhora do Bom Sucesso.
Fugindo um pouco ao tema, mas a título de curiosidade, o Historiador Marques Gomes descobriu ter existido um acordo entre os pescadores, que implicava (entre outras coisas) que os camaradas doentes e as viúvas continuassem a receber o seu salário. Algo muito parecido à Caixa dos Pescadores, que acabou por ser oficializada (decreto dado a 5-11-1852 e publicado no Diário do Governo de 20-11-1852) antes que qualquer país do mundo estabelecesse o seu próprio sistema de Segurança Social.
Surge a primeira rua que liga a ria ao mar (provavelmente a hoje Avenida Hintze Ribeiro). Aí são construídas as primeiras casas de adobes e pedra, propriedades da tal alta sociedade, que tinha já descoberto os encantos deste paraíso à beira-mar plantado. E assim ficou a Praia da torreira, por muitos anos.
No século passado o aglomerado habitacional foi crescendo, embora que moderadamente, até aos anos oitenta.
Os pescadores nunca deixaram de ser pobres e as famílias abastadas nunca deixaram de nos visitar, mas a convivência sempre foi pacifica.
Com a desafectação da Murtosa ao Concelho de Estarreja e consequente criação do Concelho da Murtosa, passou a praia a ser uma das suas quatro Freguesias, tendo sido muito recentemente elevada a Vila.
A terra prosperou. Pelas suas raras características, deixou de ser uma simples aldeia de pescadores e foi atraindo investimentos, no sector imobiliário, da restauração, hotelaria, do entretenimento e outros. Nos anos setenta, oitenta e noventa, a praia da Torreira era “um mar de gente”. Os cafés e restaurantes enchiam várias vezes ao dia, abriram diversos bares, duas discotecas. Promoviam-se concertos com bandas mais ou menos locais e algumas de renome, ao ar livre, no Verão e no edifício da Assembleia, nos meses mais frios. Criou-se um ambiente regular, tanto diurno como nocturno, que não era de todo condicionado à época balnear.
Mas as características naturais que a distinguem e que fizeram da Torreira a praia de eleição da beira litoral, foram também a desgraça das suas gentes, porque este recanto nunca deixou de ser cobiçado.
Nas ultimas décadas, pelo poderio económico que se criou com a adesão à Europa, vieram os novos ricos, os “senhores doutores” e outros, que aqui instalaram os seus paraísos de férias, em busca de tranquilidade e sossego.
Só que a tranquilidade, meus senhores, não é compatível com o desenvolvimento. O bem de uns é o mal dos outros…
A Torreira, que tem tudo para ser uma terra próspera e desenvolvida, estagnou. Parou no tempo, depois atrofiou e agora está reduzida a uma praia de banhos para reformados, ex-emigrantes, que aqui quiseram gastar as economias de uma vida e aos tais “quartéis generais” (temporários, entenda-se), na sua maioria discretamente inseridos na paisagem, dos senhores que querem encostar o seu “barquito” na marina durante uns dias, dar umas voltas de bicicleta na ciclovia nova, tomar banhos na praia (quanto mais vazia melhor) e dormir cedo.
Para isso convém o menos movimento possível. Para isso convinha que fechassem as discotecas e os bares, que se afastassem as pessoas, principalmente a juventude, que são os mais agitadores. Não importa que para isso se estragasse a vida a tanta gente que aqui investiu tudo o que tinha!
Como fazê-lo? Foi fácil…
Primeiro travaram-se conhecimentos com o poder local, que diga-se em abono da verdade, se deixa mais facilmente influenciar pelo “Sr Dr”, do que pelo “Zé do talho”, ou a “Rosa da mercearia”. Até porque não convém ignorar estes senhores doutores, que conhecem A, B e C, desde os tempos da universidade, que agora ocupam cargos de relevo.
Este são alguns exemplos do que se tem passado nesta terra. Outros serão aqui apresentados prá semana…


Tem toda a razão, a Torreira está dominada por meia dúzia de velhos do Restelo, aos quais o Santos Sousa, lhes obedece como um ceguinho, esses velhos mais se parecem um daqueles grupos da Maçonaria, com muitos euros e algum poder no Governo, e por esse motivo, chegam a comprar mandatos de Presidências de Câmara, e eleger quem eles querem. Agora pergunto eu: não será este o caso do nosso Presidente da Câmara ?????