José Eduardo de Matos “Os impactos negativos da crise são imediatos e profundos para Estarreja.O Estado cobra mais impostos mas distribui ainda menos”

Joaquim Baptista “A Murtosa é, hoje, um Município que se projecta, de forma sustentada, na Região e no País...”

Uma espécie de crónica (continuação): “Deus nos livre dos maus vizinhos de ao pé da porta”

avatar Colocado por em 26 Ago, 2011 e na categoria de Francisco Vieira, Opinião. Pode seguir os comentários da notícia através de RSS 2.0. Pode deixar um comentário a esta publicação no final da página.

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A diminuição da afluência de pessoas à Praia da Torreira, apesar do seu enorme desenvolvimento, inegável, quando comparada com praias vizinhas, pode ser justificada por vários factores, todos eles válidos.

Eu tentarei aqui apontar os que considero terem tido mais peso nesta lamentável realidade, mas a sua compreensão requer uma explicação detalhada, que comece pela origem desta povoação, há séculos atrás.

A Torreira é e sempre foi terra de pescadores. Gente pobre, humilde, mas com uma invejável capacidade de encontrar alegria nas muitas limitações que a vida lhe impõe. Foram eles os donos e senhores da praia, por várias gerações.

Fundada em simultâneo por Vareiros e Marinhões, cedo se  transformou no mais afamado e activo centro de pesca de arrasto (Arte Xávega) da Beira Litoral, particularmente da sardinha. Na pesca estava a base da economia local.

As primeiras habitações dos pescadores (palheiros), eram todas construídas junto à margem da ria, e era nelas que se albergavam as poucas pessoas que inicialmente para aqui vinham a banhos. Estávamos em meados do século XIX, quando a praia passou a conhecer a afluência da alta sociedade do centro do país, desde a Bairrada a Viseu, até aos limites do concelho da Feira.

Datados de 1885, existem registos da construção de uma segunda faixa de palheiros, desta feita à beira mar. Construções rudimentares, frágeis, expostas ao fogo e a intempéries. Passou o aglomerado da ria (o mais desenvolvido) a ser utilizado para depósito de sardinha, por facilitar o seu carregamento para as embarcações que a levariam ao outro lado da grande Laguna. Os da beira-mar passaram então a servir de alojamento aos pescadores, durante a safra e aos banhistas, na quadra de banhos.

A actividade piscatória foi-se organizando em companhas (companhias), cujo número variou ao longo do tempo. Os seus elementos passaram a ser  maioritariamente da Murtosa, uma vez que os vareiros se foram concentrando mais a norte, na praia do Furadouro e por lá ficaram. O arrasto na costa acontecia nos meses de Maio/Junho até Novembro de cada ano.

Regressavam depois a casa, ficando a localidade praticamente deserta durante o resto do ano, entregue apenas aos cuidados do ermitão, que tomava conta da capela que passou a ser do S. Paio, tendo este sido eleito padroeiro, pelos pescadores, mas que fora inicialmente construída em honra da Nossa Senhora do Bom Sucesso.

Fugindo um pouco ao tema, mas a título de curiosidade, o Historiador Marques Gomes descobriu ter existido um acordo entre os pescadores, que implicava (entre outras coisas) que os camaradas doentes e as viúvas continuassem a receber o seu salário. Algo muito parecido à Caixa dos Pescadores, que acabou por ser oficializada (decreto dado a 5-11-1852 e publicado no Diário do Governo de 20-11-1852) antes que qualquer país do mundo estabelecesse o seu próprio sistema de Segurança Social.

Surge a primeira rua que liga a ria ao mar (provavelmente a hoje Avenida Hintze Ribeiro). Aí são construídas as primeiras casas de adobes e pedra, propriedades da tal alta sociedade, que tinha já descoberto os encantos deste paraíso à beira-mar plantado. E assim ficou a Praia da torreira, por muitos anos.

No século passado o aglomerado habitacional foi crescendo, embora que moderadamente, até aos anos oitenta.
Os pescadores nunca deixaram de ser pobres e as famílias abastadas nunca deixaram de nos visitar, mas a convivência sempre foi pacifica.

Com a desafectação da Murtosa ao Concelho de Estarreja e consequente criação do Concelho da Murtosa, passou a praia a ser uma das suas quatro Freguesias, tendo sido muito recentemente elevada a Vila.

A terra prosperou. Pelas suas raras características, deixou de ser uma simples aldeia de pescadores e foi atraindo investimentos, no sector imobiliário, da restauração, hotelaria, do entretenimento e outros. Nos anos setenta, oitenta e noventa, a praia da Torreira era “um mar de gente”. Os cafés e restaurantes enchiam várias vezes ao dia, abriram diversos bares, duas discotecas. Promoviam-se concertos com bandas mais ou menos locais e algumas de renome, ao ar livre, no Verão e no edifício da Assembleia, nos meses mais frios. Criou-se um ambiente regular, tanto diurno como nocturno, que não era de todo condicionado à época balnear.

Mas as características naturais que a distinguem e que fizeram da Torreira a praia de eleição da beira litoral, foram também a desgraça das suas gentes, porque este recanto nunca deixou de ser cobiçado.

Nas ultimas décadas, pelo poderio económico que se criou com a adesão à Europa, vieram os novos ricos, os “senhores doutores” e outros, que aqui instalaram os seus paraísos de férias, em busca de tranquilidade e sossego.

Só que a tranquilidade, meus senhores, não é compatível com o desenvolvimento. O bem de uns é o mal dos outros…

A Torreira, que tem tudo para ser uma terra próspera e desenvolvida, estagnou. Parou no tempo, depois atrofiou e agora está reduzida a uma praia de banhos para reformados, ex-emigrantes, que aqui quiseram gastar as economias de uma vida e aos tais “quartéis generais” (temporários, entenda-se), na sua maioria discretamente inseridos na paisagem, dos senhores que querem encostar o seu “barquito” na marina durante uns dias, dar umas voltas de bicicleta na ciclovia nova, tomar banhos na praia (quanto mais vazia melhor) e dormir cedo.

Para isso convém o menos movimento possível. Para isso convinha que fechassem as discotecas e os bares, que se afastassem as pessoas, principalmente a juventude, que são os mais agitadores. Não importa que para isso se estragasse a vida a tanta gente que aqui investiu tudo o que tinha!

Como fazê-lo? Foi fácil…

Primeiro travaram-se conhecimentos com o poder local, que diga-se em abono da verdade, se deixa mais facilmente influenciar pelo “Sr Dr”, do que pelo “Zé do talho”, ou a “Rosa da mercearia”.  Até porque não convém ignorar estes senhores doutores, que conhecem A, B e C, desde os tempos da universidade, que agora ocupam cargos de relevo.

Pressionou-se o comércio, com leis e mais leis, que acabaram por inviabilizar muitos projectos. Depois instaurou-se a caça à multa, na única entrada e saída da praia. Operações stop constantes, durante anos seguidos, onde centenas de pessoas perderam a carta de condução ou foram vítimas de pesadas multas. Sem uma saída alternativa, caíam ali que nem patos.Este fenómeno correu fama e muita gente deixou de nos visitar, por medo. A GNR chegou ao ponto de rondar os bares e restaurantes, anotar as matriculas dos carros estacionados, para depois lhes fazer paragem na Ponte da Varela.

A consequência disso foi o encerramento de muitos bares, das duas discotecas e de vários restaurantes, que faliram ou cujos proprietários não quiseram esperar por um fim anunciado. Dos que se vão mantendo, a maioria apenas sobrevive.

Deixaram de existir pólos de atracão para tanta gente que nos procurava. Desapareceram os que havia e não se criaram outros. Ou alguém acredita que as exposições e as feirinhas, por mais valor que tenham, trazem alguém para a Torreira? As pessoas vinham comer e beber, fazer praia e divertir-se!

Ficamos limitados ao Verão e às suas condições climatéricas, que raramente são as desejadas, e às festas do S. Paio, mas até isso já tentaram adulterar.

Uma tradição secular (os primeiros registos datam de 1758), que sempre trouxe à Torreira milhares de pessoas, agora parece incomodar a tal meia dúzia de senhores que aqui têm casa, que ganham a vida por onde querem e passam aqui meia dúzia de dias por ano. Não gostando de ruído, não sei para que vêem nos dias da festa.

Exemplo: Uma distinta jornalista da nossa praça, que tem raízes na Murtosa, que tal como eu, sempre conheceu e seguramente deu muitas voltas nos carroceis e nos carros de choque do S. Paio, agora que entrou na meia idade, ou porque hoje a fama a priva de “frequentar esses ambientes”, decidiu que os carroceis lhe incomodam o descanso e que por isso têm de respeitar a lei do ruído. Como se alguém a obrigasse a estar cá nesses dias, repito!

Não deu descanso à Câmara, enquanto não alterou um sistema que tem mais anos do que ela.E a Câmara, que ignora tantas queixas, quantas delas mais pertinentes e justificadas, não foi capaz de ignorar a vontade da senhora jornalista, e os carroceis viram condicionada a sua actuação, num arraial onde assentam praça há décadas.

Este são alguns exemplos do que se tem passado nesta terra. Outros serão aqui apresentados prá semana…


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Francisco Vieira

Francisco Vieira é natural da Murtosa. Já esteve emigrado e agora é empresário, no campo da restauração com um dos melhores restaurantes da cidade do Porto.

1 comentário “Uma espécie de crónica (continuação): “Deus nos livre dos maus vizinhos de ao pé da porta””

  1. avatar Torreirense diz:

    Tem toda a razão, a Torreira está dominada por meia dúzia de velhos do Restelo, aos quais o Santos Sousa, lhes obedece como um ceguinho, esses velhos mais se parecem um daqueles grupos da Maçonaria, com muitos euros e algum poder no Governo, e por esse motivo, chegam a comprar mandatos de Presidências de Câmara, e eleger quem eles querem. Agora pergunto eu: não será este o caso do nosso Presidente da Câmara ?????

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