Nota do autor:
O texto que se segue faz parte de um livro a ser apresentado brevemente.
Dedico-o hoje ao meu pai e a todos os pescadores reformados da Ria de Aveiro, a quem ultimamente tem sido negada a possibilidade de se matricularem nas embarcações, com o argumento de não poderem acumular rendimentos.
O meu pai tem quase oitenta anos e há setenta que navega nesta Ria. Andou por outras paragens, mas nunca deixou de ter a sua Bateira amarrada no Cais do Bico.
Reformado há trinta anos, quando lhe apetecia, ia apanhar a “caldeirada”, que dividia com os filhos e os netos. Não me lembro de o ver vender um peixe, mas lembro-me daquele brilho nos olhos, de cada vez que chegava a casa, cansado, mas feliz. Mais do que o valor do pescado, era a sensação de ainda se sentir útil.
Limita-se agora a conversar com os amigos na borda d’água, a ver os que entram e os que saem, com a voz embargada e o olhar perdido na linha do horizonte.
Isto, num país em que o Presidente da República e outros políticos, mais velhos do que muitos destes pescadores, acumulam os cargos com várias reformas.
[...] No largo que deixou de ser baldio, onde a mocidade já não brinca, onde as pipocas já não estoiram na panela quente do Maia, onde o “pisca-olho” e o “lencinho-lenção” cairam em desuso, o tempo pára, de cada vez que nasce o sol.
Na borda d’água falta a pujança do sangue novo dos que sonhavam. Faltam os olhares marotos dos rapazes e os rostos corados das cachopas. Faltam as conversas brejeiras e os ciúmes…
Hoje fala-se ali de barcos sem redes, de redes sem peixe. Fala-se de águas baixas e turvas, de moliceiros sem velas, de fainas sem fulgor, amortecidas.
Os velhos, mais novos do que aparentam, heróis a quem o tempo cansou e castrou de esperança, olham a Ria com olhos apagados, carcomidos pelo desalento, mais do que pelos anos, esquecidos no tempo e na evolução de tantas coisas inúteis.
Numa das margens, um museu, impecavelmente novo de desuso, conta a desgraça de um povo aniquilado; de um leito que deixou de parir, de uma honrosa história, há muito esquecida; de um barco que jaz partido, sem alma e sem voz; das velas que foram robustas e brancas e que são hoje o reflexo negro da inglória, nas recordações de um povo a quem a sorte esqueceu.
Dos tempos passados, resta-lhes o orgulho, num par de remos varados e nas poucas quilhas erguidas.
Até quando este infortúnio? Até quando o choro escondido, disfarçado nas vagas que lhe afogam a esperança? Até quando este penar, nas vidas vazias dos que apenas sobrevivem? Até quando a resignação desta gente a quem tudo foi roubado, menos a memória?
Cansados do futuro, cantam a saudade do que foi, temendo e chorando o que há-de vir. Choram saudades das lutas com as marés vivas de Setembro, dos barcos virados, das vidas perdidas, dos heróis afogados, de quem os órfãos recordam escassos gestos de carinho, porque a vida a mais não permitia.
Choram, porque mais não podem, do que lavar as mágoas neste mar de lamentos, que já foi Ria.

