Em 1996 divulgou-se a novidade nas televisões, nos jornais e nas rádios.
Toda a comunicação social estava numa épica e trepidante efervescência.
Finalmente, o sonho do Frankenstein era realizável, passava-se da ficção à realidade prática, quem sabe, dizia o povo, “aleluia!”“aleluia!” a vida eterna está perto de nós!!.
Abertas as vias interplanetárias, quantas luas, quantos planetas, quantos Mundos Marcianos devíamos descobrir para encontrar os espaços necessários para abrigar todos os imortais terrenos.
Por terríveis que possam ser os nossos medos, devemos agradecer a prestação de serviço que a morte nos concede gratuitamente, libertando alguns dos sofrimentos terrenos.
A Segurança Social, com os enormes passivos, não consegue gerir a pretendida jovem velhice e nós perguntamos se, com todas estas dificuldades, irão conseguir sustentar as futuras reformas.
Nada me fazia prever, neste meu humorístico ensaio de ciência e ficção, criar uma provocação promulgada com um certo exagero simpaticamente elaborada, ironizando nesta absurda e inacreditável descoberta científica tendo como tema a ovelha clone, a “famosa DOLLY”.
Do infeliz animal a ciência fez um anormal historico doente, acabando por morrer acompanhada de múltiplos sofrimentos.
A insensibilidade ocidental ignorou que este fosse um animal com bíblica simbologia e, mentalmente, instaurou um absoluto silêncio literário, mediático e social e ninguém evidenciou o heróico sacrifício oferecido ao santuário da ciência.
Passaram cerca de 15 anos desde a supracitada descoberta.
Em geral, a reflexão foi limitada. Realço algumas expressões ouvidas na época: “era uma ovelha sacrificada para o bem da humanidade”, tudo feito para tentar salvar o Mundo da fome e salvaguardar outros males, lutando contra as eventuais doenças dos seres humanos.
Quase em surdina, os Americanos, como sempre, sendo eles os donos do Mundo, fizeram aprovar a venda das carnes de origem clonada através de Administração Norte Americana para os Medicamentos e os Alimentos (FDA), uma instituição quase semelhante à “ASAE Portuguesa”, informando o Mundo que esta Instituição (FDA), supostamente declarada a mais bem equipada, garantiria ao publico uma honesta ética profissional. Naturalmente tudo Americano, referenciando a agência como das mais desenvolvidas, considerada a mais competente para julgar, da melhor forma, como salvar o Mundo das suas famintas tragédias.
O mesmo comportamento é utilizado com as agências financeiras de “RATING” o Mundo faz reverencias, inclinando-se com humildade crédula nas próximas avaliações financeiras, reconhecendo que os Estados Unidos da América possuem tudo quanto é melhor, desde a liberdade democrática, ao racismo mais acerbo, à pobreza sem assistência social, ao desemprego, e também são os melhores na dívida externa e na poluição ecológica do planeta Terra.
Portanto aqui fica um elogio indispensável para os financeiros americanos que foram os mais activos iniciadores no desenvolvimento desta famosa crise que poluiu as finanças mundiais.
A supracitada FDA autorizou a comercialização do gado clonado. Se esta carne está a ser vendida ou não, ninguém sabe. Sabemos que os produtos agrícolas transgénicos são autorizados para exportação, silenciosamente aceite pelos mercados mundiais, Portugal incluído, sem indicações específicas nos rótulos destinados à venda ao público ignorante e consumidor.
Dos animais nascidos pela técnica de clonagem creio que também não temos esclarecimentos sobre as doenças eventualmente transmissíveis. O mais importante será recuperar os investimentos e multiplicá-los com intensidade. Imagino metaforicamente como será justificado gritar bem alto: A GRANDE AMÉRICA vai salvar o Mundo da fome.
Desta vez, no lugar das VACAS LOUCAS, vamos com tridimensional loucura, alimentar os seres humanos com gastronomia cientificamente pouco sadia, moralmente contrariando às leis espirituais, alterando os conceitos genéticos da natureza.
Com esta aprovação a certificação alimentar da América transformou-se num Deus muito perigoso, pondo em causa os equilíbrios históricos e culturais. Espero que a humanidade acorde do sono egoísta, no qual estamos todos a ser embalados.
Talvez optemos por enriquecer ainda mais quem já está muito rico. Pouco importa se os animais nascem doentes, como aconteceu com a pobre Ovelha DOLLY, e se estas doenças podem ser transmissíveis. O mais importante é produzir carne, insuflando os meandros melodiosos dos dólares.
O mesmo acontece com os alimentos transgénicos. As erradas políticas agrícolas destruíram os cultivos tradicionais e temos visto na Lusitânia, criarem-se desertos agrícolas. A loucura de querer transformar tudo geneticamente para, naturalmente, resolver a fome em Portugal e no Mundo, só se poderia aceitar se tivéssemos, realmente, garantia na protecção da saúde.
No meu modesto saber, onde estão as certezas nestas formas de actuar ao produzir gado clonado ou outros alimentos transgénicos? Será absolutamente inócuo?
Os cientistas, divergem nas opiniões e os interesses financeiras são alimentados por objectivos gananciosos. Então onde estará a verdade?
Aprovar as manipulações genéticas exige certas garantias para as populações consumidoras e não podemos fiar-nos em vagas suposições. A saúde é o nosso bem mais precioso e, actualmente, o mais caro.
Com um pouco menos de egoísmo, a fome no Mundo pode ter solução, com técnica e finanças mas falta-nos a generosidade no coração.
Enogastronomicamente Vostro
Gil Gilardino
